terça-feira, 26 de agosto de 2008

A essência do Cristianismo

"Essência. Quando ouço essa palavra, parece que sai do objeto um odor, uma fumaça... Uma palavra que parece perdida". Fernanda Markus

Procurado por um pastor para falar da minha ausência prolongada do Corpo de Cristo, me deparei com uma situação, digamos, inusitada. A situação envolvia não somente minha salvação, como também toda a minha condenação eterna, pois, segundo esse tal pastor, o rol de membros da igreja é uma prova de que faço parte do corpo de Cristo. Pois bem, aqui estou eu, salvo, crente, e condenado ao círculo dos ignavos e dos não-batizados por causa de um nome inscrito numa lista símplice de igreja. Isso é, na verdade, a perda da essência do cristianismo. A essência do Cristianismo é: somos pecadores e condenados; Cristo morreu em nosso lugar e ressuscitou; basta crermos, confessarmos Jesus como senhor, crer que Deus o ressuscitou e confiar nisso. Simples, muito simples, absurdamente simples e inacreditavelmente simples, mas todas as igrejas acrescentam doutrinas que tornam o Cristianismo extremamente complicado.

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As igrejas não se conformam com isso, e acrescentam proibições, disciplinas, regulamentos, pressupostos, dogmas e tudo o mais, o que cada vez mais dificulta a verdadeira comunhão do crente com Deus. Quando Jesus estava com os discípulos, disse que, na sua ausência, nos enviaria um consolador, o Espírito Santo, que mostraria aos cristãos o caminho a ser seguido. As igrejas adotam uma estratégia diferente: deixar o Espírito Santo falar a alguns membros, persegui-los e apontar a ação do mesmo apenas nos tratados teológicos, pois, segundo esses tratados, o que o Espírito fala é apenas o que desejam nossos corações. Isso é um erro violento e paradoxal.

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As igrejas perderam a fé na essência, e concentraram-se demais nos detalhes. Constróem o prédio tendo em vista mais as janelas que os fundamentos. As verdades do Cristianismo podem se resumir à sua essência, o que passar disso vem do Diabo. Esse mesmo pastor, com uma correntezinha com seu nome escrito em volta do pescoço, me recriminou por eu colecionar alguns símbolos religiosos. Para mim, símbolos religiosos são apenas objetos. Há muito tempo deixei de acreditar em magia. Um símbolo é vazio sem seu contexto. Eu posso ter um quadro de Preto Velho em casa, ou vários santos católicos, e eles não servirão de nada se eu não for umbandista, candoblé ou católico, nem irão contribuir para o bem ou para o mal de minha fé. Mas os crentes de hoje os imbuíram de misticismo, transformaram-nos em amuletos mágicos negativos pelo simples fato de os associarem ao diabo.

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Há uma preocupação exagerada pela forma da vida cristã, pelo que ela aparenta diante dos símbolos, e muito pouca preocupação com seu conteúdo, com a essência. Assim, simples como é, o Cristianismo para mim é uma atitude pessoal diante da vida. Estou no corpo de Cristo, apesar de não estar em nenhum rol de membros. Não sou brasa, nem fogo, para que me apague. Sou de carne e osso. O corpo de Cristo conta comigo, mesmo que eu seja uma ponta do fio de cabelo, sem importância. Me importa ser do corpo, não me importa se dentro ou fora dele. Essa é a essência.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Fé e Razão: A falsa dicotomia.

Virou lugar comum no discurso religioso: fé e razão não são antagônicos, mas se complementam. Outra maneira comum de sustentar o mesmo ponto de vista é trocando por Religião e Razão por Ciência. Depois de milênios dominando a humanidade e de alguns séculos sendo constantemente atacado pela Ciência, esse discurso surge como uma estratégia de defesa perfeita para a Religião: (i) ao contrario do que é pregado pela Ciência, a Religião não seria algo totalmente inútil para explicar o mundo como ele é, e (ii) ao contrário do que pregam os ateus, a Religião não seria um sinal de "atraso", mas a combinação de Religião + Ciência, ou + Razão seria um sinal de avanco.

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Acho que sou um dos poucos dentre o meio religioso que ainda não "aderiu" ao tal discurso. explico. Ciência e Religião não são complementares, pelo contrário, são conflitantes! Ambas têm o mesmo início e o mesmo fim. Ambas começam com um ser humano perdido num mundo infinitamente complicado e terminam em explicações lógicas para essa complicação toda. Qual a diferença entre dizer que o mundo é populado por espiritos desencarnados, que nós já vivemos vidas passadas e de dizer que toda complexidade do mundo está escondida atrás de uma função de distribuição de probabilidade que ninguém entende direito ainda??? Ambos são testáveis? Até certo ponto. Todos são lógicos? Até certo ponto.

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Eu diria que a grande vantagem da Ciência em relação à Religião é o fato de haver uma resistência menor (mas não nula!!) à quebra de "dogmas". Talvez isso venha do fato de a Ciencia cultivar um zelo maior pela clareza e organização de seus argumentos. É muito mais difícil sustentar um argumento científico incoerente do que um argumento religioso estúpido. Por outro lado, a Religião também tem suas vantagens em relação à Ciência. Em primeiro lugar, todas elas tentam, ao seu modo, responder à questão mais crucial: "Qual o sentido da vida?", enquanto que o máximo que a Ciência pode dizer é "42".

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O que fazer então? Não sei. Só acredito que argumentar que é possível, seguir a Razao e a Religião ao mesmo tempo é tão estúpido quanto perguntar se é possível ser Catolico e Espirita ao mesmo tempo. A pergunta não é estúpida pelas semelhanças e diferenças entre essas coisas, mas em assumir que qualquer uma delas vai trazer todas as repostas, quando na verdade nós não sabemos ainda nem quais são todas as perguntas.