terça-feira, 18 de novembro de 2008

Crentes de espada na mão

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(escrito por Félix Maranganha)
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Ponto inicial da discussão: Há uma falha nos crentes. Todo crente acha que discutir é criar oposições uns em relação aos outros, em vez de construir elementos sobre os discursos uns dos outros.
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Numa comunidade no Orkut me veio essa discussão insalubre: FILHOS PERDIDOS X FILHOS DA PERDIÇÃO. Um pastor, não direi de que denominação por questões de ética (ou seja, não direi que é presbiteriano) disse que há uma diferença vinda do grego. Sabemos que o grego é uma língua rica em nuances de significados, que dispenso aqui apresentar exemplos, por questões de comunicação. Só sei que o cara ficou citando exemplos de Mateus 18:11, Lucas 15:24, Lucas 19:10, João 17:12, 2 Tessalonicenses 2:3 etc.
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Ele perguntou: Será que Jesus se manifestou para salvar os dois??? Ou há uma enorme distinção entre os dois???
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Eu respondi: Que me importa? Orarei pelos dois, pois para mim são a mesma coisa, distingui-los é falar crentês e esquecer do essencial.
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Sua resposta foi: Na parábola do joio e do trigo, talvez perceba isso.
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Me irritei. E com razão. Qual a ordem de Cristo? Ide e pregai o evangelho a TODA CRIATURA! Não me importa se Faraó, Judas, Saul eram filhos da pedição, a ordem de Cristo inclui eles também.
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O problema maior são os seminários. Se um seminário diz que em grego existe uma palavra para água e uma para água realmente molhada, os pastores começam a citar esse fato para um cem número de doutrinas locais de várias igrejas. Se o grego distingue pássaro e pássaro com penas (ou seja, pássaro, menos o morcego), os pastores começam a se preocupar somente com esse fato para dizer que o Espírito Santo não baixou sobre Cristo sob a forma de um morcego (e se baixasse, que diferença faria?).
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Óóóóóó! Minha vida mudou depois de saber que existe água, e água realmente molhada! Minha concepção de mundo agora é outra ao saber que o pombo é um pássaro com penas! Incrível, a Bíblia nos fala dos perdidos e dos filhos da perdição! Me sinto revigorado agora, pronto para mais uma aula de grego koiné nos horários em que eu deveria estar evangelizando!
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Só chego à conclusão de que devemos nos desapegar dos preceitos gramaticais que apenas desviam nossa atenção. Respeito a opinião de todos, mas creio que devemos observar, por exemplo, que devemos ajudar o próximo, seja ele perdido, filho da perdição, filho da mãe ou filho e uma quenga.
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Nos preocuparmos se batismo deve ser por imersão ou aspersão, se há livre arbítrio ou predestinação, se devemos ir ao teatro ou não, manter a castidade ou não etc etc etc etc etc etc etc... Peraí!!!!!!!!!!!!!! Deus nos deu o Espírito Santo, e ficar tentando convencer o outro não vai adiantar. O Espírito Santo em cada um dá a revelação na medida certa, mesmo que pareçam se contradizer a princípio.
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Não estou desmerecendo os debates, que chegam a ser interessantes, mas há preocupações maiores ao nosso redor, como a violência crescente nas cidades, furacões no sul da Ásia, terremotos no Brasil, o menino de rua que pede esmolas para comprar cola de sapateiro. O menino quer estudo, alimentação, família. Ele não quer uma discussão sobre se ele perde salvação ou não, nem quer que a gente fique discutindo se ele é perdido ou filho da perdição. Ele vai morrer de fome, seja ele perdido ou filho da perdição, se não pararmos de discutir para dar-lhe um pedaço de pão.
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Olhe essa imagem e pense:
é mais importante ficar discutindo ou agindo?.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O Salto da Fé

(Escrito por Félix Maranganha)

"Escolhi um lado racionalmente, agora só quero que respeitem isso", Antônio Medeiros Costa, vaqueiro

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Eu, por vezes, enfrento um pouco de preconceito na academia por causa de minhas posições religiosas. Nas escolas, onde dou aula, isso é problema sério, pois vejo que o preconceito, já bem afamado entre os adolescentes, é ainda maior por parte dos professores. Não digo do preconceito religioso em si contra somente minha pessoa, digo do preconceito conceitual, aquele que impede que pessoas comuns e intelectuais tenham uma conversa racional sobre qualquer assunto.

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Darei aqui dois exemplos:

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1.Dando aulas, certa vez, sobre a origem da literatura, citei vários textos da Bíblia e apresentei suas semelhanças com o Popol Vuh da América Central. Na mesma aula, levantei algumas hipóteses acerca da composição bíblica no primeiro, um aluno meu, evangélico, ergueu sua voz, e minha aula inteira se perdeu ali. Não adiantou eu dizer que era também evangélico, que era criacionista, que era "salvo no sangue do cordeiro". Minha aula, repito, nunca mais foi a mesma.

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2.Numa discussão com Luciano, um amigo meu, anos atrás, fui tachado de bitolado, fanático e intelectualmente imaturo por causa das mesmas posições. Não adiantou explicar que, antes de ser evangélico fui agnóstico, cético, e que adotava posições cientificamente aceitas pela academia. Não adiantou eu falar do caso do Rio Paluxy, ou das menções às Serpentes Chinesas de Pan-Ling. Para ele eu era um baixo calão em vivo, e pronto. Aí está a minha vida, sofro preconceito.

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Mas acredito que, num mundo globalizado, pelo menos eu tenha o direito de dizer tanto que Jesus é o Senhor, que fui salvo por sua morte e estou aqui apenas aguardando o Paraíso, como tenho o direito de alardear que não aceito determinados dogmas, que sou de formação científica e que tanto faz eu ser criacionista como evolucionista, o salto de fé é o mesmo. . Acredito na humanidade, e espero que ela também acredite em si mesma.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Fés Nomeadas e Denominadas

(Texto escrito por Félix Maranganha,
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com charge de Daniel Soares Simões)
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Uma caminhada em qualquer lugar de uma cidade, da travessa à avenida, revelará um fato interessante e, por que não(?), hilário. Observei o nome de igrejas evangélicas, católicas, centros espíritas, terreiros de cultos afro e até mesmo centros de reunião Seicho-No-Ie. Atentei-me para o fato esdrúxulo de que esses locais se autobatizam com nomes generalizantes, dizendo-se os únicos a receberem tais nomes.
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Comecemos pelos nomes das fés ou denominações evangélicas. Quando se encontra um templo, há, de início, o nome Igreja Batista, Congregacional, Assembléia de Deus ou Universal do Reino de Deus. O primeiro problema é que todas batizam, congregam membros, são assembléias e dizem-se universais, e do Reino de Deus(!!!). Talvez seja por isso que os evangélicos as chamam de Denominações, pois não passam de nomes, de rótulos.
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O problema é que alguns rótulos são até errôneos. Veja a Presbiteriana, por exemplo. Por que ela recebe esse nome? Porque tem um presbitério, que em tese deveria ser um conjunto de conselheiros para auxiliar o pastor, e que, em prática, é um corpo político que tem poderes superiores ao de um pastor. É um sistema parlamentarista. Então por que não se chama logo Igreja Parlamentariana? E a Batista Regular? Chama-se assim por dizer-se seguir a Bíblia como única regra de fé e prática, como se as outras igrejas cristãs usassem o Alcorão ou o Bhagavad Gita.
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E a igreja Católica, que ataca a Igreja Universal, e vice-versa? Ambas se dizem a mesma coisa. O Islamismo se diz "submisso" a Deus. Legal, isso significa que mais ninguém é. O Espiritismo diz que sua doutrina básica é a "comunicação com os espíritos", que o resto não é espiritismo. Interessante, o xamanismo, a umbanda, o candomblé, o animismo, a pajelança e outras manifestações similares não se comunicam com os mortos, assim não sendo espiritismo.
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Alguns grupos são até menos criativos, porém mais coerentes, e usam logo o nome de seus fundadores: Carmelitas, Franciscanos, Luteranos, Budistas, Kardecistas (como alguns espíritas se referem à sua fé).
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Algumas religiões usam nomes mais tradicionais: Judaísmo (em menção à tribo de Judá), Hinduísmo (nome do povo de origem), Xintoísmo, Lamaísmo, etc.
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Eu acredito que o nome é apenas um rótulo. A palavra apenas leva até o significado, mas, chegando ao significado, o nome deixa de fazer sentido. Não adianta uma igreja se dividir por causa da piscina e uma se chamar Igreja do Reino do Senhor e a outra chamar-se Igreja dos Servos do Senhor do Reino. É apenas mais uma forma de exclusão por meio da fé através dos rótulos.
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E o que dizer das crenças mais esdrúxulas, e de nomes mais esdrúxulos ainda? Recentemente me deparei com o templo dos Adoradores do Deus Pela Manhã (o que me fez levantar a tese de que à tarde o tempo é dedicado ao pecado). E o Discordianismo? E o que dizer da Fé do Grande Lenço Branco (significa que eu não passo de secreção nasal de Deus)? Igreja Evangélica Bola-de-Neve (às vezes eu rio quando penso nas possibilidades)? Lista dos Adoradores Anônimos de Satã (lista, anônima, ai ai...)? Centro de Adoração ao Deus Lilás (ai, bofe)? Tudo isso numa cidade como João Pessoa.
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E dizem que religião não é interessante. Eu se divirto muito.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Do que a religiao tem medo?

(escrito por Marcos Aurélio)
Esses dias topei com a seguinte notícia pela web (traducao minha)
Biologistas perto de criar vida em laboratório
"Um time de biologistas e químicos está perto de trazer matéria sem vida à vida.
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Não é tão 'franksteiniano' quanto parece. Em vez disso, um laboratório liderado por Jack Szostak, um biologista molecular na Harvard Medical School, está construindo modelos de células simples que quase podem ser chamadas 'vida'.
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As protocélulas de Szostak são feitas de moléculas gordurosas que contêm pedaços de ácidos nucléicos que carregam código-fonte para replicação. Combinados com um processo que obtém energia do sol ou de reações quíimicas, eles podem formar um sistema evolutivo, auto-replicante que satisfaz as condições de 'vida', mas que não se parece com nada do que é chamado 'vida' na terra atualmente, e pode representar vida como ela começou, ou como ela pode existir em algum outro lugar no universo.
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Apesar de seu último trabalho ainda não ter sido publicado, Szostak descreveu seus avanços preliminares em fazer com que protocélulas com informação genética dentro repliquem na XV Conferência Internacional sobre a Origem da Vida em Forença, Itália na semana passada. A replicação ainda não é autônoma, portanto ainda é vida artificial, mas é mais perto do que qualquer um tenha chegado em termos de transformar elementos químicos em vida biológica."
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O mais interessante não é a notícia em si. Quem entende um pouco das variáveis envolvidas percebe que apesar de ser algo realmente interesante, ao tirar a "camada de marketing" não tem nada revolucionário na pesquisa. Mas, para variar, os americanos transformaram a lista de comentários num verdadeiro "debate religioso-filosófico".
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Os comentários, para começar, comprovam o velho ditado de que a religião se baseia no medo, enquanto que a ciência na esperança. Isso pode ser visto nos comentários do tipo "Deus não permite", "cuidado com as conseqüências", "nao façam isso pois é o fim do mundo" etc.
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O segundo ponto interessante é que a expressão que mais se vê nos comentários é "playing God", ou "brincando de Deus", insinuando que este não é um campo reservado aos seres humanos, mas algo que deve ser restrito a Deus. Interessante que essas afirmações não são fundamentadas em nada a não ser o medo. Que eu saiba nenhum livro sagrado legisla sobre a criação de protocélulas artificiais nem lista as coisas que são prerrogativas exclusivas de Deus.
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Minha pergunta é: do que a religião tem medo?